O dia em que o vovô foi morar no céu

Papai Educa • 12/08/2018 10:30:00

Dia 23 de junho de 2018. Ainda que não perdesse a esperança sobre a misericórdia divina e a confiança em sua soberana vontade, sabia que naquela manhã uma difícil missão acompanharia minha família. O vovô Claudio foi morar no céu! Mesmo que precisasse ajudar a administrar todos os trâmites burocráticos deste momento no falecimento do meu sogro, algumas dores me arrancavam o ar: a de não conseguir amenizar o sofrimento da minha esposa de ter perdido o pai e a angústia em buscar a melhor decisão para contar para meu filho de 5 anos que, agora, o vovô não estaria mais fisicamente entre nós.

Levar ou não ao velório? Como ele reagiria diante do corpo? Como as pessoas se comportariam ao ver o neto querido se aproximar do caixão? Ainda que a dúvida tenha nos acompanhado desde a notícia até o sepultamento, não o levamos. Não queria que ele tivesse na memória a imagem do avô ali, assim como eu guardei a do meu, ao perdê-lo aos 9 anos.

Meu sogro não era apenas o pai da minha esposa, mas o meu também. Era o avô coruja dos meus pequenos, companheiro, solidário, amigo, divertido. Após o sepultamento, me encontrei com meu filho, agachei na frente dele e o lembrei que o vovô estava doente e que, agora, ele havia ido morar no céu. Ele me olhou fixamente nos olhos e me disse uma única coisa:

- “Papai, você também vai morrer?”.

- “Filho, o vovô morreu por estar doente. Papai quer ver você casar, ter filhos, eu quero brincar com meus netos”.

- “Mas o seu cabelo está ficando branco”.

- “É, está, mas isso não significa que o papai vai morrer”.

- “E embora o vovô tenha ido morar com o Papai do céu, ele está vivo em nossas lembranças e no nosso coração. Você se lembrará de escorregar no barrigão do vovô, de jogar bola com ele, de ir ao pesqueiro, de tudo de legal que fizeram juntos”.

A minha família conheceu a dor da ausência, viveu durante os dias subsequentes todos os questionamentos do meu pequeno acerca dos motivos da morte, além das lágrimas incontidas de saudades, de uma dor que dói como se nunca fosse parar de doer.

A morte é uma das certezas da vida, que é “um sopro” para empilharmos maus sentimentos. O cantor católico Thiago Brado nos aconselha que “...passado não volta, futuro não temos e o hoje não acabou. Por isso, ame mais, abrace mais, pois não sabemos quanto tempo temos pra respirar. Fale mais, ouça mais. Vale a pena lembrar que a vida é curta demais”.

Eu não sei quem você vai abraçar neste domingo do Dia dos Pais. Na minha família, a dor da ausência certamente se fará presente, assim como tem sido nos últimos 50 dias. Eu terei os braços do meu pai, a minha esposa não sentirá os do dela. E aposto que, se tivesse uma nova chance, após esta experiência, ela daria o mais demorado abraço de toda sua vida. A fé e a confiança de que o vovô está no acolhimento eterno é o que nos conforta. Talvez você ainda tenha quem abraçar hoje e todos os demais dias de sua vida e não o faz. Pode até não ser o pai. Quem sabe um irmão, um filho, um amigo...

Esteja capacitado para amar e não apenas dizer “eu te amo”... Um dia não haverá não só abraço, mas o aperto de mão, o diálogo, a troca de olhar, o sorriso, a voz... Talvez nem mesmo a oportunidade de um último adeus. Mas só o desejo de que tudo isso voltasse no tempo. Ame mais!

Leandro Nigre é pai, jornalista, especialista em Mídias Digitais, editor-chefe de jornal, e idealizador do Papai Educa www.papaieduca.com.br. Contato: papaieduca@gmail.com

 

NA CONTRAMÃO

É exaustivo estar na contramão de um mundo que desvaloriza a família e, acima de tudo, entrega um modelo fracassado de felicidade, que vende satisfação e liberdade em forma de bens materiais e por meio de “doutrinas perdidas”, que pulverizam pelas nações uma legião de seres humanos sem rumo, sem prumo...sempre à procura! Educar cansa, mas eu ainda prefiro todo meu tempo dispensado neste processo. Investir no próximo é também aplicar recursos em si. E nesta entrega aos meus meninos, o amanhã será apenas amanhã. Ainda dá tempo de você descobrir que “viver de hoje” é muito mais recompensador! Acompanhe estas e outras reflexões em nossas redes sociais, no Facebook (/PapaiEduca) e no Instagram (@papaieduca).

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