Bicicleta, expressão mais bela do futebol

Charanga Domingueira • 07/05/2018 09:07:11

Outro dia o grande craque português Cristiano Ronaldo fez um gol de bicicleta perfeito. Outros já o fizeram, mas dificilmente com aquela qualidade de colocar o corpo reto na horizontal, costas para o chão, dois metros acima do solo e acertar o balão num vai e vem de pernas como se o estivesse colocando com as mãos no canto esquerdo do grande goleiro Buffon que só pode pedir a ajuda divina. Defesa impossível que só Deus faria. A bicicleta é a melhor e mais perfeita maneira de se mostrar a beleza da plasticidade que o futebol pode alcançar. Dia seguinte, nossa imprensa esportiva publicou declaração de Pelé: “pergunta com quem ele aprendeu?” Pois não foi com Pelé. Os antigos sabem que comecei no rádio pelas mãos de Nenê Rodrigues, grande figura de nossa radiofonia quando o rádio por aqui engatinhava. Nenê era são-paulino até a medula. São-paulino também era o político ranchariense Chiquito Franco de alto cargo no governo do Estado. Conselheiro do tricolor, conseguiu trazer o São Paulo para jogar em Rancharia numa segunda-feira à tarde. Moleque ainda eu já ajudava o Nenê nos programas da PRI-5 e na companhia do mesmo fomos à Rancharia para ver Leônidas da Silva pela primeira vez. Embora em final de carreira algum tempo depois ainda jogou em Prudente em duas ocasiões. Nessa época, 1948 ou 49, não tenho certeza, era eu um aplicado aluno do GE Fernando Costa, que depois virou IE. Tínhamos um professor de Ciências, médico na cidade e que não escondia de ninguém seu racismo. Não tenho pejo em declarar porque se vivo fosse ele não me desmentiria. Racista era e racista ficaria. Em quase todas as aulas fazia questão de proclamar que trabalhava como um mouro para ganhar uma miséria e que o “nêgo” Leônidas ganhava uma fortuna chutando uma bola. O nome do professor e médico era Olímpio Ribeiro da Luz e seus comentários racistas eram comuns. Naquela época era praticamente natural a existência de expressões que hoje dariam cadeia. Já imaginaram a batucada de Davi Nasser e Rubens Soares, sucesso cantado pelos “Anjos do Inferno” no carnaval de 1942 e o refrão “nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia” e que Elis Regina gravou pouco antes de morrer, cantado nesta época do politicamente correto? Pois fomos ver o “nêgo” Leônidas, que anos depois se tornou meu amigo e colega, na verdade eu me tornei seu colega. A esperança era que ele executasse a bicicleta que se dizia, inventara. Pois, igual a Pelé, não foi Leônidas que inventou o lance que Cristiano Ronaldo repetiu outro dia. Ele mesmo me disse. Dizem que um chileno na época de 1920 fora o primeiro. Conheci Petronilho de Brito, corretor de seguros em São Paulo e que jogou na seleção. Este sim, foi o verdadeiro inventor da bicicleta que Leônidas viu e aperfeiçoou. Era o irmão mais velho de Waldemar de Brito, craque, que não inventou o belo lance mas, descobriu um gênio chamado Pelé, algo muito mais importante que uma banal bicicleta que hoje até um português sabe executar.

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